Presas do Amor
No centro de uma floresta habitada por diversos animais e outras criaturas, o vento trouxe às narinas do jovem lobo uma fragrância nunca antes experimentada por ele. Seus pelos loiros e claros eriçaram-se diante do maravilhoso cheiro que adentrou em seu sistema. Ele estava pronto para a caça, e acreditava ter tirado a sorte grande naquela vez.
Em questão de segundos pôs se a correr a procura do cheiro que lhe chamara a atenção. O sol ao alto proporcionava-lhe uma ótima sensação em contraposição ao vento que lhe atingia. Não demorou muito para que o dono daquele odor lhe viesse a vista.
Ele observou em silêncio enquanto um caçador humano andava cautelosamente pela floresta a procura de sua presa.
Ele sabia que o caçador não teria muito mais tempo de vida, já que, como era de costume em seu clã, todo humano andando em seu território era comida e deveria ser partilhado entre os outros de sua espécie.
Quando o jovem licantrope estava prestes a dar o bote no caçador, este virou-se estático a procura dos olhos que o fitavam.
Assim que os olhos do caçados alcançaram os da jovem criatura, ambos ficaram estáticos e, para o lobisomem, o desejo de atacar sua presa se extinguiu assim como surgiu.
O caçador, ainda em choque pela aparição da criatura que, muitas vezes, aterrorizava sua cidade, viu-se apontando o arco que carregava para a besta que o olhava, mas incapaz de atirar
“Seria medo?” ele se perguntou.
Mas sabia que medo não era. Em sua aldeia, ele já havia sido responsável pela morte de muitos da espécie daquela jovem besta e em nenhuma das vezes o medo lhe atingira.
Os olhos da criatura, agora abertos e surpresos, o convidavam como imã.
Ele sabia que precisava correr, ou seria a refeição de toda a alcateia, mas seus pés não o obedeciam.
Em meio a essa confusão de sensações e pensamentos algo extraordinário aconteceu a sua frente.
Sob seus próprios olhos, a criatura voltou à forma humana.
Ele pensou que estivesse sonhando por um momento. Não era possível que aquele lobo tivesse se colocado em uma situação de tamanha desvantagem e vulnerabilidade.
E foi então que o caçador notou o belo rosto do rapaz que o encarava com mesma perplexidade. Os cabelos encaracolados e loiros do rapaz cobriam parte de seus olhos azuis, mas apenas o suficiente para que o caçador pudesse vê-los e aprecia-los
Os olhos dele pareciam como topázio azul. Eram grandes e profundos, e pareciam brilhar com a luz do sol. Apenas olha-los dava-lhe a sensação de estar nadando em um maravilhoso lago num dia ensolarado.
E então, como se fosse a coisa mais óbvia e trivial, ele entendeu.
O terror tomou os olhos do caçador. Ele sabia que as posições haviam mudado. Quando entrara naquela floresta, estava pronto para aquelas criaturas, filhas da lua. Era sua missão caçá-las e levar suas peles como prova de vingança para as aldeias que elas, a muito tempo, aterrorizavam. Mas agora ele não era mais o caçador e sim a presa, a presa daquela bela criatura que nem por um segundo havia tirado os olhos dele.
Ele era belo demais, e cada pelo de seu corpo parecia concordar, fazendo com que seu corpo tremesse suavemente apenas ao contato visual entre os dois.
O jovem lobo, contudo, não tinha tanta dificuldade para entender o que acontecia. Sua cabeça não era atormentada pelos pensamentos complexos que beiravam a mente do caçador. No momento em que decidira vir a sua forma humana, já tinha consciência de que seu destino havia sido selado
Sua presa o havia dominado e assim como acontecera ao caçador, ele se havia se tornado presa de sua própria refeição.
O jovem humano estava prestes a fazer algo de que tinha certeza que o faria se arrepender mais tarde. Ainda com o arco na mão, deu um passo em direção ao belo jovem que o encarava. Este nada demonstrou além de curiosidade.
O caçador assistiu atônito enquanto a cabeça da criatura inclinava-se levemente para o lado como se tentasse entender as intenções do humano.
Ele estava sendo estudado! Aquilo fez com que seu coração acelerasse. Novamente uma enchente de pensamentos o tomou e o impulso de segurar mais firmemente o arco voltou.
“Grrr” ele ouviu assim que sua mão tomou o arco posto em sua mão.
O rapaz soltava um baixo rosnado enquanto o caçador se aproximava lentamente dele
Os instintos de sobrevivência de cada um deles voltava dominar seus seres. O perigo da situação voltava a ser óbvio, para ambos.
Mas a curiosidade mantinha-se igualmente elevada.
Limpando a garganta o caçador disse hesitante:
“Ei, você”
“Ei, você”
O jovem lobo deixou sua desconfiança e novamente sua cabeça inclinou-se tomado pela curiosidade.
O caçador não conseguia pensar em nada para falar. Ele não estava preparado para uma conversa, ele estava ali para matar e voltar para seus contratantes. A tensão já quase não existia entre os dois quando o humano se encontrava a menos de dois metros do rapaz.
“Qual o seu nome?” perguntou o dono dos cabelos dourados numa voz baixa e firme.
O rosto do caçador tinha uma mistura de surpresa e encanto. Ele não pensava que a criatura soubesse realmente sua língua e muito menos que sua voz fosse tão atraente. Era como um lindo canto de anjos.
“Qual o seu nome?” perguntou o dono dos cabelos dourados numa voz baixa e firme.
O rosto do caçador tinha uma mistura de surpresa e encanto. Ele não pensava que a criatura soubesse realmente sua língua e muito menos que sua voz fosse tão atraente. Era como um lindo canto de anjos.
“Gabriel” murmurou ele sem ter certeza se o filho da lua o ouvira.
Quando estava prestes a perguntar seu nome. Algo passou por entre as árvores e o interrompeu. Os neurônios de seu corpo começaram a trabalhar mais rapidamente e ele entendeu em questão de instantes de que estava em perigo.
Seus olhos vasculharam a área e não fora preciso muito para ver que outro licantrope de dois metros e meio o observava por entre duas arvores pouco atrás do outro que a pouco lhe falara.
“Samuel” urrou a criatura amedrontadora.
O jovem calmamente virou-se para encontrar com seu irmão de alcateia.
Como se entendesse o que estava por vir, o jovem tomou novamente a sua forma animalesca, apenas para ser levado ao chão pelo monstro que era no mínimo meio metro mais alto que ele.
Gabriel, atônito diante da cena que transcorria em sua frente tentou mirar em seu alvo, mas seria impossível acerta-lo agora sem correr o risco de atingir o jovem que o cativara.
Ambos se atracavam no chão, o lobo cinza e o dourado. Seus dentes atacavam o ombro um do outro e suas garras tentavam atingir desesperadamente a garganta do inimigo. Mas assim como a briga começou, ela acabou. Samuel acabou cedendo ao lobo mais velho e abaixou a cabeça como sinal de respeito. Gabriel aproveitando a oportunidade liberou sua flecha que teria acertado o outro lobo em cheio no peito não fosse sua velocidade e reflexo sobrenatural.
A criatura avançou sobre ele e colocou sua pata no peito do jovem caçador. Com um rosnado feroz e estrondeante, apertou as costas do homem contra o chão fazendo este soltar um gemido de dor.
Quando Gabriel estava certo de seu fim. A criatura deu uma mordida no ar em frente a seu rosto e se afastou.
Simples como veio virou-se para encarar Samuel que ainda permanecia de cabeça colada ao chão devido à hierarquia que reinava a alcateia e passou por ele em direção oposta ao caçador.
Samuel ganhou novamente postura e seguiu seu superior, mas não antes de olhar diretamente nos olhos assustado do humano que arfava no chão.
O caçador seguiu a retirada da criatura até a floresta sem desviar o olhar dela por um segundo sequer.
Ninguém iria acreditar no que ele havia acabado de presenciar.
